domingo, 18 de maio de 2008

As Águias não sobem pela escada

O pedagogo prepara minuciosamente os seus métodos e, segundo dizia, estabelecera cientificamente a escada que permite o acesso aos diversos andares do conhecimento; medira experimentalmente a altura dos degraus, para adaptá-la às possibilidades normais das pernas das crianças; arranjara, aqui e ali, um patamar cômodo para se retomar o fôlego, e um corrimão benévolo amparava os principiantes.
E o pedagogo zangava-se, não com a escada, que, evidentemente, fora concebida e construída com ciência; mas com as crianças que pareciam insensíveis à solicitude dele. Zangava-se porque tudo acontecia normalmente quando ele estava presente, vigiando a subida metódica da escada, degrau por degrau, tomando fôlego nos patamares e segurando no corrimão. Mas, se ele se ausentava uns momentos, que desastre e que desordem. Apenas continuavam a subir metodicamente, degrau por degrau, segurando no corrimão e tomando fôlego nos patamares, os indivíduos que a escola marcara suficientemente com a sua autoridade, como os cães de pastor que a vida treinou para seguir passivamente o dono e que se resignaram a não mais obedecer ao seu ritmo de cães transpondo matas e atalhos.
O bando de crianças retomava os seus instintos e as suas necessidades: uma subia a escada de quatro, engenhosamente; outra tomava impulso e subia os degraus de dois em dois, saltando os patamares; havia mesmo as que tentavam subir de costas, adquirindo até algum desembaraço. Mas sobretudo – incrível paradoxo – havia aquelas, e eram maioria, para quem a escada se mostrava desprovida de atração e aventuras, e que, contornando a casa, segurando-se nas calhas, saltando as balaustradas, chegavam em cima num tempo mínimo, muito melhor e mais depressa do que pela escada pseudo metódica; uma vez lá em cima, escorregavam pelo corrimão... para recomeçarem a ascensão apaixonante.
O pedagogo persegue os indivíduos obstinados em não subir pelos caminhos que considera normais. Mas terá ele perguntado a si mesmo, por acaso, se essa ciência da escada não seria uma falsa ciência e se não haveria caminhos mais rápidos e mais salutares, em que se avançasse por saltos e largas passadas? Se não haveria, segundo a imagem de Victor Hugo, uma pedagogia das águias que não sobem pela escada?
A pedagogia do bom senso

Celèstin Freinet


Esse texto me levou a refletir muito no ano passado, e ainda continua fazendo efeito. Na nossa escola ideal as crianças devem ter a liberdade de de voar e construir seu conhecimento, nada de filas super organizadas, mas é claro que também não será uma desordem total. É preciso ter mais espaço para as brincadeiras infantis.

Um comentário:

Anônimo disse...

As vezes nos esquecemos que já fomos crianças, que temos uma lógica diferentes da do adulto e que há infinitas possibilidaes de aprendizagem. Dispensemos os manuais que nos engessam e dexemos a vida entrar na sala de aula.Se estivermos atentos, observaremos o quão ricá é a relação professor-aluno que enquanto ensina, aprende e ao aprender ensina também.